
Da primeira vez, tudo é novidade, e a novidade ocupa o olho inteiro. Vê-se a praia, a pedra, o rio, a cor da água. Fotografa-se muito. Leva-se embora uma imagem do lugar, nítida e incompleta, como o retrato de alguém que se viu uma vez só.
Da segunda vez, a novidade cede. Repara-se no que a pressa escondeu: a que horas o barco sai, de que lado o vento chega à tarde, onde a sombra aparece primeiro. O lugar deixa de ser paisagem e passa a ter hábitos. Quem volta começa a ter os seus também: um trecho de areia, uma pedra onde se senta, um caminho que prefere.
Há uma diferença entre visitar e frequentar, e ela não está no número de dias. Está na expectativa. O visitante quer que o lugar o surpreenda. Quem frequenta quer que o lugar continue igual, e se alegra quando continua. Uma coisa é procurar o que nunca se viu; a outra, conferir que ainda está lá o que se ama.

A língua tem uma palavra boa para isso: costume. Tem-se o costume de um lugar como se tem o de uma pessoa. Sabe-se o jeito dele, as horas ruins, os dias em que não quer conversa. Em Piçarras, o costume é o do mar manso da enseada. Em Milagres, o do recife que aparece e some. Em Maraú, o da travessia. Em Piraputanga, o da pedra que muda de cor.
Voltar também muda quem volta. A cada ano chega-se um pouco diferente, e o lugar, que não mudou, serve de medida. Lembra-se do que se pensava ali no ano anterior, do que preocupava e já não preocupa. Poucas coisas dão essa régua. Um quintal de infância dá. Um lugar ao qual se volta, também.
E há os outros. Quem volta sempre acaba cruzando com quem volta sempre. Primeiro um aceno, depois um nome, depois uma tarde inteira sem combinação. Não se escolhe essa companhia; ela se forma, com a lentidão das coisas que duram. Um dia percebe-se que a viagem já não é só ao lugar: é também a essas pessoas.
A pergunta que interessa não é aonde ir. É aonde voltar.


Nada disso se apressa. Não há atalho para a terceira vez, nem para a décima. O que se pode fazer é começar, e começar cedo: os anos que um lugar pede só se pagam com anos.
Por isso, a pergunta que interessa não é aonde ir. É aonde voltar. A primeira se responde com um mapa. A segunda leva tempo, e cada um a responde uma vez, talvez duas, na vida.
Outras Notas

A travessia
À Península de Maraú chega-se pela água. A viagem começa no cais.
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O que a enseada guardou
Antes do veraneio houve uma capela, uma armação baleeira e o primeiro mexilhão cultivado do estado.
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A pedra vermelha
Em Piraputanga, a serra, o rio e o trilho correm lado a lado.
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