
NotasOfício
Os saveiros de Cajaíba
Do outro lado da Baía de Camamu, ainda se fazem barcos de madeira à mão.
Na margem da Baía de Camamu oposta à península fica Cajaíba. O nome aparece pouco nos mapas de viagem, e muito na boca de quem entende de barco. Ali ainda se constroem, à mão, saveiros e escunas de madeira.
O saveiro é o barco tradicional da Bahia: casco de madeira, vela, feito para carregar. Durante muito tempo foi ele que ligou as margens das baías baianas, levando gente e mercadoria de um porto a outro. Vieram as estradas e os motores, e o saveiro foi rareando. Em Cajaíba, o ofício de construí-lo não parou.
Um estaleiro tradicional não se parece com fábrica. É um trecho de margem, com o casco em construção apoiado em terra, perto da água. A madeira é escolhida peça a peça, porque cada parte do barco pede uma curva, e a curva vem da árvore. O que se vê é um esqueleto que vai ganhando pele.

Os nomes das peças já são uma língua à parte: quilha, cavername, roda de proa. Quem ouve dois carpinteiros conversando entende metade. A outra metade é gesto.
Quem dirige o trabalho é o mestre. Na construção tradicional, a planta conta menos que a medida guardada na memória, o gabarito, o olho. O conhecimento passa de quem sabe a quem ajuda, no próprio estaleiro, ao longo de anos. Não por acaso, a carpintaria naval de Cajaíba já foi assunto de pesquisa universitária: é um saber que mora nas pessoas.
Um barco de madeira leva o tempo que leva. Não se apressa a secagem, nem o encaixe, nem a calafetagem. Quem encomenda sabe disso, e espera. Há uma lição aí que serve para além do estaleiro: certas coisas só ficam boas quando ninguém tem pressa.
Certas coisas só ficam boas quando ninguém tem pressa.


Da península, Cajaíba é uma presença, mesmo para quem nunca foi lá. Quem cruza a baía e vê passar uma escuna de madeira pode estar vendo trabalho daquela margem. O barco chega antes do nome.
Chegar depois, a um lugar assim, obriga a saber quem já estava. Antes de qualquer veraneio na península, havia quem fizesse barco na baía. O ofício é mais velho que o turismo, e não depende dele. Merece o respeito que se deve ao que não foi feito para ser visto.
A Baía de Camamu é uma das maiores do Brasil, e continua sendo, em boa parte, caminho de água. Enquanto for, alguém terá de saber fazer barco. Em Cajaíba, sabe-se, e continua-se a ensinar.
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